segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Paulo Coelho, o trabalho e a vida

Saudações a todos! Ops... sei que este é um blog de nenhum leitor, mas me deu uma vontade imensa de saudar!

Passei o fim de ano junto com a minha família na minha cidade natal. Confesso que foi um fim de ano meio atípico, super tranquilo. Tranquilo até demais, a ponto de nos últimos dias antes de voltar para a minha casa no Rio, o tédio já estava fazendo a festa em mim (voltei com material para mais de dez posts!).

Chega de enrolar e vamos direto ao assunto: Paulo Coelho. Não, não sou fã de Paulo Coelho e nem vou aproveitar esse espaço para recomendar alguma de suas obras ou para questionar o seu talento como escritor (se alguém estiver interessado numa discussão sobre o tema, recomendo esse excelente post do interessantíssimo blog Lendo.org). Até porque eu preciso estudar muita gramática do português antes de começar a criticar o sujeito (vide os meus posts que devem ser um desastre com concordâncias e afins). O que o Paulo Coelho tem a ver com esse post então, meu deus? Ocorreu que, na minha falta do que fazer, acabei lendo um livro do nosso honrado imortal, onde achei um texto curiosíssimo, que tomei a liberdade de reproduzir abaixo e compartilhar com meus amigos. Prestem atenção ou simplesmente pulem, se quiser. Para os que vão prosseguir, sei que é pedir demais tentarem abstrair o teor auto-ajuda da coisa toda, mas tentem, pelo menos!

Manual para ser aceito na sociedade como uma pessoa normal

1 - Aceitar qualquer coisa que nos faça esquecer nossa verdadeira identidade e nossos sonhos, e nos faça apenas trabalhar para produzir e reproduzir.

2 - Aceitar que é possível ter regras para uma guerra (Convenção de Genebra).

3 - Gastar anos fazendo uma universidade, para depois não conseguir trabalho.

4 - Trabalhar de nove da manhã às cinco da tarde em algo que não dá o menor prazer, desde que em 30 anos a pessoa consiga aposentar-se.

5 - Aposentar-se, descobrir que já não tem mais energia para desfrutar a vida, e morrer em poucos anos, de tédio.

6 - Uso de botox.

7 - Procurar ser bem-sucedido financeiramente, ao invés de buscar a felicidade.

8 - Ridicularizar quem busca a felicidade ao invés do dinheiro, chamando-o de “pessoa sem ambição”.

9 - Comparar objetos como carros, casas, roupas, e definir a vida em função destas comparações, ao invés de tentar realmente saber a verdadeira razão de estar vivo.

10 - Não conversar com estranhos.

11 - Sempre achar que os pais estão certos.

12 - Casar, ter filhos, continuar juntos mesmo que o amor tenha acabado, alegando que é para o bem da criança (que parece não estar assistindo às constantes brigas).

12a - Criticar todo mundo que tenta ser diferente.

14 - Acordar com um despertador histérico ao lado da cama.

15 - Acreditar em absolutamente tudo que está impresso.

16 - Usar um pedaço de pano colorido amarrado no pescoço, sem qualquer função aparente, mas que atende pelo pomposo nome de “gravata”.

17 - Nunca ser direto nas perguntas, mesmo que a outra pessoa entenda o que se está querendo saber.

18 - Manter um sorriso nos lábios quando se está morrendo de vontade de chorar. E ter piedade de todos os que demonstram seus próprios sentimentos.

19 - Achar que arte vale uma fortuna, ou que não vale absolutamente nada.

20 - Sempre desprezar aquilo que foi conseguido com facilidade, porque não houve o “sacrifício necessário”, e portanto não deve ter as qualidades requeridas.

21 - Seguir a moda, mesmo que tudo pareça ridículo e desconfortável.

22 - Estar convencido de que toda pessoa famosa tem toneladas de dinheiro acumulado.

23 - Investir muito na beleza exterior, e se preocupar pouco com a beleza interior.

24 - Usar todos os meios possíveis para mostrar que, embora seja uma pessoa normal, está infinitamente acima dos outros seres humanos.

25 - Em um meio de transporte público, jamais olhar diretamente nos olhos de uma pessoa, caso contrário isso pode ser interpretado como um sinal de sedução.

26 - Quando entrar no elevador, manter o corpo voltado para a porta de saída, e fingir que é a única pessoa lá dentro, por mais lotado que esteja.

27 - Jamais rir alto em um restaurante, por melhor que seja a história.

28 - No Hemisfério Norte, usar sempre a roupa combinando com a estação do ano; braços de fora na primavera (por mais frio que esteja) e casaco de lã no outono (por mais quente que esteja).
29 - No Hemisfério Sul, encher a árvore de Natal de algodão, mesmo que o inverno nada tenha a ver com o nascimento de Cristo.

30 - À medida que for ficando mais velho, achar-se dono de toda a sabedoria do mundo, embora nem sempre tenha vivido o suficiente para saber o que está errado.

31 - Ir a um chá de caridade e achar que com isso já colaborou o suficiente para acabar desigualdades sociais do mundo.

32 - Comer três vezes por dia, mesmo sem fome.

33 - Acreditar que os outros sempre são melhores em tudo: são mais bonitos, mais capazes, mais ricos, mais inteligentes. É muito arriscado aventurar-se além dos próprios limites, melhor não fazer nada.

34 - Usar o carro como uma maneira de sentir-se poderoso e dominar o mundo.

35 - Dizer impropérios no trânsito.

36 - Achar que tudo que seu filho faz de errado é culpa das companhias que ele escolheu.

37 - Casar-se com a primeira pessoa que lhe oferecer uma posição social. O amor pode esperar.

38 - Dizer sempre “eu tentei”, mesmo que não tenha tentado absolutamente nada.

39 - Deixar para viver as coisas mais interessantes da vida quando já não tiver mais forças para tal.

40 - Evitar a depressão com doses diárias e maciças de programas de TV.

41 - Acreditar que é possível estar seguro de tudo que conquistou.

42 - Achar que mulheres não gostam de futebol, e que homens não gostam de decoração.

43 - Culpar o governo por tudo de ruim que acontece.

44 - Estar convencido de que ser uma pessoa boa, decente, respeitosa, significa que os outros vão pensar que é fraco, vulnerável, e facilmente manipulável.

45 - Estar igualmente convencido de que a agressividade e a descortesia no trato com os outros são sinônimos de uma personalidade poderosa.

46 - Ter medo de fibroscopia (homens) e parto (mulheres).

47 - Finalmente: achar que a sua religião é a única dona da verdade absoluta e que todos os outros seres humanos neste imenso planeta que acreditam em qualquer outra manifestação de Deus estão condenados ao fogo do inferno.

(Paulo Coelho)

Têm umas ótimas. A que eu mais gosto é a número 16: qual a utilidade de uma gravata?! Eu sempre me questionei isso. E acredito que se algum dia eu precisar de um acessório desses para ir para o trabalho, certamente teria fugido (e muito) de todos os meus valores presentes.

Manual para ser aceito na minha família como uma pessoa normal

Dia desses, me peguei conversando com minha prima sobre a cultura do concurso público que reina na nossa família. Esse é o caminho que todos acreditam ser o melhor para os filhos e netos: passar num concurso público e ter emprego garantido para o resto da vida. Se eu olhar para o lado, não tiro a razão deles, pois todas as fontes de renda da minha família (todas mesmo, sem uma única exceção) são de cargos ou aposentadorias de serviços públicos. O parâmetro deles é esse. Entretando, para mim, a idéia de ter um emprego garantido para o resto da vida não parece tão atraente. Me soa mais como a crença de um trabalhador inglês na época da recém-chegada Revolução Industrial.

Finais de semana: devem ser utilizados para as pessoas fazerem aquilo que elas gostam, principalmente gastar o dinheiro que elas ganham do trabalho.

Férias: período de tempo quando as pessoas descansam e relaxam das atividades ligadas ao seu trabalho.

Conseguiram perceber como esses conceitos são frágeis? Parece que a vida fica espremida entre o trabalho e a hora de dormir.

Se a pessoa conseguisse se ocupar de um trabalho que fosse desafiador, empolgante ou que simplesmente desse muito prazer, esses conceitos já estariam quebrados. Ou ainda: se as pessoas não precisassem trabalhar oito horas todos os dias, e tivessem mais tempo para se dedicar a atividades que não necessariamente lhe dessem retorno financeiro, a vida não seria mais leve?

Acontece que esses conceitos já estão tão arraigados na nossa sociedade, que as pessoas já não param para pensar se as coisas poderiam ser de outro jeito. Da maneira como funciona hoje, é como se a pessoa aceitasse trabalhar numa coisa que não lhe dê muito prazer, mas que proporcione um retorno financeiro de modo que a pessoa possa se encher de agrados para compensar o tempo que passa naquela atividade (pensem nos carros, nos restaurantes caros, nas roupas de marca, e por aí vai). Isso tudo são recompensas. Mas, na essência, não passam de próteses: o ser humano, a todo instante, preenchendo um vazio que ele mesmo fez. É a vida nos extremos: nos estressamos e nos entediamos muito e depois nos mimamos e nos agradamos muito também.

Existe alguma maneira da vida ser um pouco mais equilibrada?

Goethe resume a essência do texto do Paulo Coelho na seguinte citação:

Quem, de três milênios, não é capaz de se dar conta, vive na ignorância, na sombra, à mercê dos dias, do tempo.