domingo, 22 de março de 2009

Carta a Jose

Caro Jose,

Como vão as coisas?

Estava escrevendo um post sobre o filme "Entre os muros da escola", que vi essa semana, mas tive que deixar ele de lado um pouco e escrever essa carta (na maioria das vezes, eu escrevo aqui alguma coisa que fica rondando por algum tempo a minha cabeça). Nesse final de semana, outros pensamentos tomaram o lugar do conflito entre professores e alunos abordado no filme e, como esse outros pensamentos têm muito a ver com muitas das coisas que trocamos até agora, tive a necessidade de escrevê-los e enviá-los a você.

Já faz algum tempo do seu regresso a Nova York depois de ter passado uns dias por aqui (dias bem legais, por sinal). Naquela ocasião, para ser mais preciso, no dia em que você chegou, quando voltei do trabalho à noite, fomos a um restaurante em Ipanema tomar algo e bater um papo. Como eu estava me recuperando de uma sinusite e tomando antibióticos, pedi uma bebida de iogurte com manga, sem álcool. Lembra que conversamos sobre a vida, o trabalho, e como era estranho constatarmos que a vida parece ter tomado um rumo onde tudo parecia ser meio banal? E que você disse que conversando sobre isso com outro amigo acabavam chegando a conclusão de que as coisas são assim e não há muita saída. Foi quando eu citei a cena final do filme do Almodóvar "Má educação", quando a palavra paixão vai crescendo até tomar a tela inteira, e disse que eu acreditava que o grande desafio era descobrir aquilo que fazemos com paixão e colocarmos isso em prática, lembra? Pois então, nesse final de semana, alguns fatos trouxeram esse assunto com força total a mim.

O primeiro deles aconteceu na sexta-feira. Eu estava folheando uma revista antiga, quando me deparei com uma entrevista com um escritor de romances. O que eu fiquei surpreso e admirado foi constatar que o cara já tinha quatro livros publicados e isso com apenas 30 anos de idade!

No mesmo dia, achei o blog do jornalista e repórter da versão brasileira do CQC Rafael Cortez. Li alguns posts e também fiquei muito admirado com o trabalho do cara. E só o fato de ele manter um blog interessante (têm umas sacadas muito boas!), além de ser excepcionalmente inteligente, mexeu bastante comigo. E ele tem 32 anos!

O fato que terminou por abalar todas as minhas estruturas e colocou todos os questionamentos na fogueira novamente, ocorreu no sábado de manhã: o recomeço do curso de teatro. A aula foi espetacular. A professora é excelente. Era incrível ver as pessoas executando os exercícios, absorvendo às instruções e se entregando de verdade a algo por pura paixão (inclusive eu!). E, caramba, que sensação maravilhosa!

Eu tenho uma desconfiaça do porquê desse fatos aparentemente isolados e banais terem provacado em mim essa sacudida. Como conversamos algumas vezes, eu sempre me perguntei qual o significado de aproveitar realmente a vida? Quando olhamos para trás, o que é que nos dá mais orgulho de ter realizado? Ou o que é que teríamos orgulho de realizar daqui para frente? É incrível como a resposta a essas questões assume uma forma diferente em cada fase da vida, de acordo com a realidades que estamos condicionados. Até as próprias perguntas acabam sendo tendenciosas (observe que eu estou assumindo que aproveitar a vida é realizar algo que nos dá orgulho). Partindo desse princípio, eu tenho um esboço da resposta a essas questões hoje. E ela, certamente, envolve paixão.

Já tentei "aproveitar a vida" buscando somente o prazer por prazer. Vivi uma fase tentando aproveitar a vida dessa maneira e começou a se abrir um vazio muito grande dentro de mim. Sentia que estava desperdiçando algo.

Hoje, eu tenho a vaga idéia de que fazer algo que me dê orgulho envolve o seguinte verbo: construir (ou produzir). Não consegui ainda elaborar cem por cento essa idéia, mas acredito que o caminho seja por aí. Se eu partir desse princípio, consigo visualizar o porquê de uma vida somente de prazer por prazer causar um vazio: porque é uma idéia totalmente oposta ao construir. Quando buscamos somente aquele tipo de vida, estamos "desligados" da realidade. Não existe resultado, não existe produto daquela ação, não se evolui. O prazer acaba e o que resta? Deve haver algo que proporcione um prazer mais duradouro e esse algo deve ser o contruir. Construir com paixão.

E eu acredito também que seja por isso que me causa muita admiração alguém novo com alguns livros já publicados (resultado de um processo de construção de livros) ou alguém que mantém um blog interessante e inteligente (resultado de um processo de construção de um blog). Eu li uma vez que se admiramos alguma coisa é porque lá no fundo gostaríamos de viver ou fazer aquilo. E, de fato, a idéia de eu publicar um livro, de fazer um filme, de manter um blog interessante me agrada demais. Sinto que eu teria muito orgulho de mim. E escrever é algo que faço com muita paixão. Mesma coisa é o teatro.

E por que logo construir arte me fascina?!

Acredito que a arte, junto com a fé, são as expressões máxima de humanidade. Ou seja, são as atividades que comprovam que o ser humano é realmente humano, diferente dos outros animais. Na maior parte do tempo, estamos satisfazendo a nossa necessidade de sobrevivência e os extintos primitivos (quando dormimos, nos alimentamos, acasalamos, trabalhamos etc.). E quando resolvemos tudo isso, qual o degrau que está adiante? Poderia ser a arte. E arte, envolve contemplação. Ora, um cachorro não consegue cavar um buraco e depois ficar contemplando "nossa, esse buraco ficou uma maravilha! Uma verdadeira obra de arte!".

Puxei um pouco para o lado da arte, mas é claro que existe muitas outras coisas que podemos contemplar e nos orgulhar (defender e lutar por uma causa, por exemplo, como fez Harvey Milk). Mas acredito que em todas elas esteja presente a fórmula construir com paixão.

Jostein Gaarden, o professor de filosofia que escreveu "O Mundo de Sofia", sugere num de seus livros que se existe algum sentido natural para a existência do universo, esse sentido é a própria contemplação de si mesmo. Ou seja: o fato de o homem ser a expressão da evolução máxima que o universo conseguiu chegar até agora (até onde a gente sabe!) seria porque o homem é capaz de contemplar o próprio universo em si e de questionar a sua existência. Em termos mais simples, se existe um Deus criador do universo, o propósito da criação é a contemplação dela própria. E, talvez como criadores da nossa própria existência, o objetivo, no fim das contas, seja contemplar a criação desse nosso infinitésimo universo. E se orgulhar dela.

Bem, eu poderia me alongar ainda mais. Contudo, deixarei para fazer isso em outra ocasião. Faço sinceros votos que tudo esteja indo muito bem por aí. Sinto falta de você e das nossas conversas. Espero te ver em breve.