segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Dívidas com a alma

A minha mais remota lembrança sobre o que eu queria ser quando crescer é de uma página de uma revista de colorir com o desenho de um cientista (era um boneco mexendo com tubos de ensaio). Quando me perguntavam, eu tinha a resposta na ponta da língua: quero ser cientista!

Tudo bem que esse sonho não durou muito. Logo, logo, eu já estava querendo ser um monte de outras coisas. Uma vez, eu quis ser ator: brincava com os meus primos de montar peças e musicais que apresentávamos para a minha tia (acho que era a única que tinha paciência para nos assistir). Mas essa vontade durou até eu resolver fazer um curso de teatro e ser impedido por uma frase categórica do meu pai: "Teatro é coisa de bichinha".OK. Tive que partir para outra.

Já quase na fase do vestibular, estava totalmente inclinado a fazer Desenho Industrial: adorava desenhar e passava tardes e tardes desenhando e pintando (guardo até hoje uma pasta com os desenhos já amarelados dessa época).

Até que minha mãe me matriculou num recém inaugurado "curso de informática". Eu nunca tinha usado um computador e, segundo ela, como aquilo era importante para o meu futuro, fui para a primeira aula junto da minha tia (a mesma que assistia os musicais). Para os entendidos, era um curso de DOS e windows 3.11. Foi paixão à primeira vista. Logo na primeira aula, eu acabei a tarefa rapidamente e fui mexer num programa... de desenho! Ganhei elogios do professor que, espantado com a minha "habilidade", não acreditou que aquela era a primeira vez que eu usava um computador. Eu tinha 12 anos e a certeza do que iria fazer do meu futuro.

Lembro que nessa época, até cheguei a iniciar um curso de programação, mas resolvi abandonar, pois o curso era na mesma hora que Shurato, um desenho animado japonês que eu adorava (as crianças são muito sábias em suas decisões).

Hoje eu estou formado em computação, desisti do mestrado para "ganhar um dinheirinho" no mercado e acho que estou começando a ser cobrado de todas essas dívidas que eu fiz com a minha alma. Não sinto que ficar oito horas na frente de um computador fazendo sistemas é a coisa mais apaixonante e gratificante do mundo (tirando o salário que é bom e que já falei sobre isso no post anterior). Acordar às segundas-feira para viver essa "vida de escritório" é uma paulada no meu ânimo (isso pode ser repetir nas terças, quartas...).

Às vezes, sinto que eu preciso "ligar o automático" e esperar que essa confusão toda passe. Mas isso seria como a pessoa endividada que continua usando o cartão de crédito. E, mais cedo ou mais tarde, ela vai ter que enfrentar o tamanho do saldo negativo e o juros de todos esses abusos.

O que eu tenho mais medo é que o ser humano seja um eterno insatisfeito. Posso estar reclamando disso hoje, porém, quem me garante que amanhã, sendo louco pelo que estarei fazendo, não estarei olhando para o lado, pensando que poderia estar ganhando muito mais dinheiro?

Sendo bem franco, acho que essa última hipótese é muito difícil de acontecer. Primeiro porque as pessoas apaixonadas não costumam olhar para o lado com um interesse tão forte. E segundo porque uma conta bancária gorda, pelo menos para mim, não acrescenta muita coisa à alma. Mas uma alma grande e preenchida faz crescer uma conta bancária de qualquer tamanho. Pensando bem, não tenho tanto medo assim.

Sobre essa questão, a imagem que eu tenho do meu interior é uma grande onde se chocando contra uma rocha. Rezo para que em breve essa imagem mude para um lindo sol no horizonte sobre um imenso mar dourado.

Não se pode ignorar
os apelos da alma,
os apelos do coração.

Quando sufocados,
são apenas breves sussurros.

Mas quando libertos,
são suficientes
para fazer uma grande festa.

Permita que eles façam
a revolução.

Um comentário:

K.K disse...

Adorei, amigo!! Você estava particularmente inspirado dessa vez... Já disse que os seus posts são como um grande incentivo pra mim! Penso exatamente as mesmas coisas que você, até pq acho que nós dois temos objetivos parecidos - ambos desejamos algo muito maior do que uma gordo saldo bancário - a felicidade (absoluta)!
Você disse tudo... Acho que quando estamos realizados, trabalhando com algo que nos dá prazer, nem olhamos para o lado. Porque já teremos a maior de todas as riquezas!
Tenho mto orgulho de ser seu amigo!
Grande abraço,
K.K
ps. Achei lindo o poeminha! É seu?