Nesses poucos meses, eu tirei férias, viajei para fora do país, aprendi uma cacetada de coisas e dei início a uma nova fase da minha vida. Isso parece um pouco forte - parece até pretencioso demais para falar a verdade - mas é isso mesmo que está acontecendo (e ai de mim se eu negar!).
Eu vinha numa busca constante sobre o verdadeiro valor das coisas: o que realmente valia a pena? Como se sentir realizado? Como viver uma vida feliz? O que eu me imagino fazendo daqui a vinte anos? Eu estaria satisfeito se tivesse todo o dinheiro do mundo? O que eu faria com ele? O que estará escrito no meu epitáfio?
Aquela rotina de trabalhar, ganhar dinheiro e gastar já estava se tornando muito sem sentido e vazia. Ainda mais que, quanto mais eu me aprofundava, mais eu percebia que aquele tipo de trabalho não me satisfazia e não me realizava como ser humano. Havia alguma coisa, que eu não sabia o que era, que não pertencia ao mundo triste da aprisionante rotina-sem-sentido. Será que essa tal coisa existia mesmo, ou o mundo seria desse jeito e só nos restaria nos adaptar e nos acostumar com isso? Eu sabia que tinha algo além.
Sempre tive a sensação de que eu não nasci para ser "mais um". Eu sempre soube que eu nasci prá fazer a diferença. Se não fosse assim, do que adiantaria viver? Não que eu me considere melhor do que ninguém, ou que isso seja algo de outro mundo, ou uma missão divina que eu recebi de uma entidade superior, mas apenas uma maneira de encarar a vida. E que ótimo seria se todo mundo se sentisse assim e procurasse fazer a diferença da sua maneira. Mas como eu poderia fazer a diferença no mundo, se eu não estava fazendo a diferença na minha própria vida?!
Para dar uma resposta a isso tudo, eu mergulhei em mim mesmo, procurando achar que valor era esse. Isso não é uma tarefa fácil: é preciso se livrar das amarras, dos nós, dos preconceitos, das muletas, do lixo... enfim, de tudo aquilo que trava a nossa evolução como seres humanos. E o que eu achei foi algo muito particular e pessoal. Se cada pessoa fizesse a mesma busca, iria achar um valor que é só seu (é impossível determinar um valor universal concreto para a vida de todas as pessoas). Independente do que seja, é algo que dá combustível à vida, que faz você levantar empolgado todos os dias da cama, que te dá um enorme prazer e que, mesmo nos momentos difíceis e de sofrimento, você aprecia com um amor sem limites. É o quanto vale o limitado tempo de vida que nos foi dado sobre esse planeta.
No meu caso, eu dei início a minha formação profissional como ator. Parece simples, mas considero o resultado de todo um processo; o final de um ciclo e o início de outro. Explico: eu sempre fiquei muito admirado com o trabalho desses profissionais, seja em filmes ou em peças de teatro. Quando eu saía de um musical, por exemplo, eu ficava dias em êxtase, abismado com o trabalho daquelas pessoas. Foi quando eu percebi que esse sentimento era muito mais do que uma admiração: era uma vontade enorme de poder fazer parte daquilo tudo! E eu li uma vez que quando admiramos absurdamente alguma coisa é porque lá no fundo, temos o desejo de poder realizar aquilo (mesmo que isso leve alguns anos!). Porque, para ser bem sincero, nunca me passou pela cabeça um dia fazer uma faculdade de... artes-cênicas!
E está sendo tudo muito, muito mágico: cada aula, cada minuto, cada contato com as pessoas que compartilham do mesmo amor! A sensação é como se eu estive expandindo cada vez mais e mais!
Isso tudo pode parecer coisa de sonhador ou idealismo, mas, como eu falei, é a minha resposta particular! E eu sei o quanto de valor ela tem para mim. E eu posso apenas tentar compartilhá-la com você, mas eu não posso garantir que você vai sentir isso que eu estou sentindo fazendo essa mesma coisa, pois esse é o meu valor. E não foi tudo tão simples como eu descrevi acima: faz parte de todo um processo de conhecer a mim mesmo iniciado há muito tempo. E que não para por aí, pois durante o percurso eu posso ver valores em outras coisas também (escrever livros, quem sabe?!), basta não se fechar.
Hoje eu tenho isso bem claro: que tudo começa pelo auto-conhecimento. Tudo começa pela resposta da pergunta: quem sou eu? E isso não é uma tarefa simples, pois estamos tão amarrados e somos constantemente bombardeados por valores que não são os nossos, seja pela formação da família, pressão dos amigos, pressão da sociedade, pressão da pessoal amada, que é muito fácil esquecermos quem somos de verdade no meio dessa loucura toda. E a certa altura dos acontecimentos, nos pegamos vivendo uma vida medíocre: uma vida aprovada pelos nossos pais, pela sociedade, mas completamente medíocre para os nossos valores pessoais. E eu tenho certeza de que, bem lá no fundo, o desejo de todo ser humano é não levar uma vida medíocre. Basta ir retirando essas camadas que se formaram ao longo do tempo que esse desejo logo vai aparecer. É preciso se livrar dos vícios, que jogam pela ralo toda a nossa energia que poderia estar sendo utilizada nessa jornada tão excitante.
Nesse dia havia apenas uma pequena carta na grande caixa de correio e era para Sofia. (...) Sofia abriu o envelope. Encontrou uma pequena folha, que não era maior que o respectivo envelope. Na folha estava escrito:Quem é você?
(O Mundo de Sofia, Jostein Gaarder)
Um comentário:
É evidente a verdade, a intensidade e o deslumbramento com as novas descobertas em cada linha do texto.
Realmente tocante.
E muito familiar...
:)
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