domingo, 29 de janeiro de 2012

Deus

Não sei o porquê, mas ontem me ocorreu a seguinte ideia: o próprio conceito de Deus invalida todo e qualquer dogma religioso que afirma que somente se chega ao "divino" através de uma única via. Ao mesmo tempo, o próprio conceito de Deus valida todos os caminhos para se entrar em contato com Ele, ou com essa força maior, ou com essa Lei Universal.

Explico: se Deus, ou essa força, ou Lei, é realmente grande, universal e onipresente, por que Ele criaria uma regra, ou ditaria uma norma, de que só através de uma determinada religião ou crença é que seria possível aos seres humanos chegarem até Ele? Por que ele concederia esse benefício apenas a um povo, ou apenas a um "representante oficial", ou colocaria a "Verdade" em apenas um determinado livro? Por que só uma determinada oração, ou um grupo de santos, ou deuses, ou apenas um certo tipo de ritual seria o "verdadeiro", o "certo", ou o "salvador"?

Se Deus é esse amor tão grande e inesgotável, se essa Lei é tão poderosa e infinita, seria mais lógico, mais justo, mais benevolente e até mais inteligente Ele procurar estar no coração de cada ser humano, respeitando as diferenças de cada um. Isso se aplica também a outros dogmas que tentam ditar determinadas normas de comportamento, que acabam gerando mais ódio e discriminação do que qualquer outra coisa.

Se fizermos uma comparação com os esportes, existem mil maneiras diferentes de se exercitar o corpo. Alguns são mais intensos, outros mais moderados. Uns exigem mais das pernas. Outros mais dos braços. Mas no fim das contas, o importante é se exercitar, independente da modalidade. Da mesma maneira, cada um é livre prá escolher a melhor maneira de exercitar a sua fé. Que bonito seria se as religiões fossem mais honestas nesse ponto: ao invés de tentar conseguir mais adeptos, poderiam adotar o seguinte discurso: "Olha, nós trabalhamos nossa fé dessa maneira e vemos Deus desse jeito. Ficaríamos felizes se você praticasse com a gente. Mas ficaremos felizes do mesmo jeito se você tiver mais afinidade com outra crença, ou desenvolvesse sua própria opinião pessoal sobre a sua fé."

Que a fé é importantíssima, disso eu não tenho a menor dúvida. É palpável e visível a diferença quando eu deixo ela um pouco de lado ou quando eu a exercito constantemente. Ultimamente, eu tenho exercitado a minha fé constantemente. E me faz um bem danado.

sábado, 22 de agosto de 2009

Auto-resposta

Engraçado como em apenas quatro meses uma vida inteira pode mudar: a última vez que eu escrevi por aqui foi em abril e nesse meio tempo tanta coisa aconteceu, tanta coisa mudou que hoje as minhas preocupações, inquietações e pensamentos são outros. Isso é magnifíco, porque prova que a minha vida está longe da estagnação. Muito pelo contrário: está a todo movimento, em pleníssimo vapor!

Nesses poucos meses, eu tirei férias, viajei para fora do país, aprendi uma cacetada de coisas e dei início a uma nova fase da minha vida. Isso parece um pouco forte - parece até pretencioso demais para falar a verdade - mas é isso mesmo que está acontecendo (e ai de mim se eu negar!).

Eu vinha numa busca constante sobre o verdadeiro valor das coisas: o que realmente valia a pena? Como se sentir realizado? Como viver uma vida feliz? O que eu me imagino fazendo daqui a vinte anos? Eu estaria satisfeito se tivesse todo o dinheiro do mundo? O que eu faria com ele? O que estará escrito no meu epitáfio?

Aquela rotina de trabalhar, ganhar dinheiro e gastar já estava se tornando muito sem sentido e vazia. Ainda mais que, quanto mais eu me aprofundava, mais eu percebia que aquele tipo de trabalho não me satisfazia e não me realizava como ser humano. Havia alguma coisa, que eu não sabia o que era, que não pertencia ao mundo triste da aprisionante rotina-sem-sentido. Será que essa tal coisa existia mesmo, ou o mundo seria desse jeito e só nos restaria nos adaptar e nos acostumar com isso? Eu sabia que tinha algo além.

Sempre tive a sensação de que eu não nasci para ser "mais um". Eu sempre soube que eu nasci prá fazer a diferença. Se não fosse assim, do que adiantaria viver? Não que eu me considere melhor do que ninguém, ou que isso seja algo de outro mundo, ou uma missão divina que eu recebi de uma entidade superior, mas apenas uma maneira de encarar a vida. E que ótimo seria se todo mundo se sentisse assim e procurasse fazer a diferença da sua maneira. Mas como eu poderia fazer a diferença no mundo, se eu não estava fazendo a diferença na minha própria vida?!

Para dar uma resposta a isso tudo, eu mergulhei em mim mesmo, procurando achar que valor era esse. Isso não é uma tarefa fácil: é preciso se livrar das amarras, dos nós, dos preconceitos, das muletas, do lixo... enfim, de tudo aquilo que trava a nossa evolução como seres humanos. E o que eu achei foi algo muito particular e pessoal. Se cada pessoa fizesse a mesma busca, iria achar um valor que é só seu (é impossível determinar um valor universal concreto para a vida de todas as pessoas). Independente do que seja, é algo que dá combustível à vida, que faz você levantar empolgado todos os dias da cama, que te dá um enorme prazer e que, mesmo nos momentos difíceis e de sofrimento, você aprecia com um amor sem limites. É o quanto vale o limitado tempo de vida que nos foi dado sobre esse planeta.

No meu caso, eu dei início a minha formação profissional como ator. Parece simples, mas considero o resultado de todo um processo; o final de um ciclo e o início de outro. Explico: eu sempre fiquei muito admirado com o trabalho desses profissionais, seja em filmes ou em peças de teatro. Quando eu saía de um musical, por exemplo, eu ficava dias em êxtase, abismado com o trabalho daquelas pessoas. Foi quando eu percebi que esse sentimento era muito mais do que uma admiração: era uma vontade enorme de poder fazer parte daquilo tudo! E eu li uma vez que quando admiramos absurdamente alguma coisa é porque lá no fundo, temos o desejo de poder realizar aquilo (mesmo que isso leve alguns anos!). Porque, para ser bem sincero, nunca me passou pela cabeça um dia fazer uma faculdade de... artes-cênicas!

E está sendo tudo muito, muito mágico: cada aula, cada minuto, cada contato com as pessoas que compartilham do mesmo amor! A sensação é como se eu estive expandindo cada vez mais e mais!

Isso tudo pode parecer coisa de sonhador ou idealismo, mas, como eu falei, é a minha resposta particular! E eu sei o quanto de valor ela tem para mim. E eu posso apenas tentar compartilhá-la com você, mas eu não posso garantir que você vai sentir isso que eu estou sentindo fazendo essa mesma coisa, pois esse é o meu valor. E não foi tudo tão simples como eu descrevi acima: faz parte de todo um processo de conhecer a mim mesmo iniciado há muito tempo. E que não para por aí, pois durante o percurso eu posso ver valores em outras coisas também (escrever livros, quem sabe?!), basta não se fechar.

Hoje eu tenho isso bem claro: que tudo começa pelo auto-conhecimento. Tudo começa pela resposta da pergunta: quem sou eu? E isso não é uma tarefa simples, pois estamos tão amarrados e somos constantemente bombardeados por valores que não são os nossos, seja pela formação da família, pressão dos amigos, pressão da sociedade, pressão da pessoal amada, que é muito fácil esquecermos quem somos de verdade no meio dessa loucura toda. E a certa altura dos acontecimentos, nos pegamos vivendo uma vida medíocre: uma vida aprovada pelos nossos pais, pela sociedade, mas completamente medíocre para os nossos valores pessoais. E eu tenho certeza de que, bem lá no fundo, o desejo de todo ser humano é não levar uma vida medíocre. Basta ir retirando essas camadas que se formaram ao longo do tempo que esse desejo logo vai aparecer. É preciso se livrar dos vícios, que jogam pela ralo toda a nossa energia que poderia estar sendo utilizada nessa jornada tão excitante.

Nesse dia havia apenas uma pequena carta na grande caixa de correio e era para Sofia. (...) Sofia abriu o envelope. Encontrou uma pequena folha, que não era maior que o respectivo envelope. Na folha estava escrito:

Quem é você?
(O Mundo de Sofia, Jostein Gaarder)

sábado, 18 de abril de 2009

Obrigado, George Sampson!

Quinta-feira dei uma escapulida do trabalho para ir ao médico. Como sempre, a minha alergia respiratória resolveu dar o ar da sua graça (de tempos em tempos, essa danada me faz uma visita, me deixando totalmente indisposto e acabando com o meu humor). No final do ano passado, comecei a fazer um tratamento homeopático para amenizá-la, mas acabei tendo que interrompê-lo. Lá estava eu, então, na quinta-feira, na sala de espera do médico homeopata, aguardando a minha vez e disposto a retomar o tratamento. Inesperadamente, o médico estava atrasado. Coisa rara, pois ele é sempre muito pontal. Como não levei um livro (peça-chave em certas ocasiões, como salas de espera de consultórios médico), peguei uma revista velha para passar o tempo. Era uma edição da Época do ano passado. Numa determinada página, havia a foto de um garotinho simpático numa pose XXX. Ao lado, tinha uma nota explicativa, dizendo que aquele menino, de apenas 14 anos, era o mais novo fenômeno na Inglaterra, pois tinha vencido o Britain's Got Talent (o mais famoso programa de talentos da Inglaterra) de 2008. O vídeo com a sua apresentação da grande final, e que tinha lhe rendido o primeiro lugar, estava entre os mais vistos do YouTube. Nele, ele apresenta uma performance de street dance ao som de uma versão remixada de "Singing in the rain". Só pude matar a minha curiosidade da tal performance quando cheguei em casa, no finalzinho da tarde (já com a receita do médico e muito cansado por conta da alergia). E, caramba, o garoto é sensacional! Segue o vídeo:



(Já explicarei o porquê de ter colocado a versão em que os jurados aparecem)

Não precisa fazer teatro ou aula de dança para perceber o quanto é difícil fazer isso. O trabalho de corpo e as expressões estão fantásticas (tanto é que ele ganhou o primeiro lugar!). Quando alguma coisa me impressiona dessa maneira, meu instinto curioso me obriga a pesquisar mais sobre a pessoa e qual o caminho que ela percorreu até chegar ali. E o quão inspirador foi conhecer um pouco da história deste "garotinho".



Eu queria muito dançar. E de onde eu vim, as crianças não tem a oportunidade de fazer o que elas gostariam, de realizar seus sonhos.

Nesses últimos dias, como todo bom ser humano, estava me sentindo bem desanimado. Chegava do trabalho cansado (apesar de não ter trabalhado muito), já estava faltando mais do que deveria à academia e as minhas orações tinham se tornado raridade. A inércia já estava tomando conta da minha rotina. E, sejamos sinceros, sair da inércia é muito difícil. É aquela história: quando você leva as coisas num ritmo bem devagar, a tendência é você ir parando. Da mesma maneira, quando tudo está num ritmo rápido, é natural a velocidade ir aumentando cada vez mais. E eu já estava incomodado com esse ritmo lento que se encontrava o meu dia-a-dia. Lembrava de quando ía todos os dias à academia e sempre tinha disposição para fazer tudo; sempre conseguia tempo para fazer as minhas orações e todas as minhas tarefas. É claro que todo mundo têm direito de relaxar um pouco e respeitar o cansaço do corpo, mas não era esse o caso. Acabou tudo culminando na alergia e aí, forçadamente, eu tinha que ficar em casa sem disposição para nada.

Na madrugada de quinta para sexta, quando mais uma vez uma insônia terrível não me deixava dormir (sempre que eu chego do trabalho, durmo um pouco e depois acordo, fico assim), resolvi dar um basta nisso tudo. E tinha que começar a mudança naquele momento. Levantei da cama e fui fazer Daimoku (oração budista). E decidi vencer a preguiça, vencer o cansaço, colocar ordem na casa, voltar a frequentar a academia todos os dias e ter tempo para orar sempre. Eu só não contava que no dia seguinte, eu chegaria dez vezes mais cansado do que nunca do trabalho por conta de uma piora na alergia, querendo desesperadamente a minha cama. Mas ao invés de ir dormir, não sei porquê, fui rever o vídeo do George. E o remix de "Singing in the rain" e a persistência daquele garotinho foram me contaminando. Tomei a minha homeopatia e fui cantando para a academia. Foi um dos melhores dias de treino da minha vida! Acabei toda a série e tinha disposição para ficar muito mais tempo lá.

Quando cheguei em casa, depois de um bom banho e de um rápido lanche, fui fazer as minhas orações. Decidi que no dia seguinte, no curso de teatro, eu iria fazer a melhor cena da minha vida. E realmente foi: a professora nunca tinha elogiado tanto uma cena minha!

Parace uma coisa bem pequena e simples o que ocorreu comigo esses dias. E de fato o é. Mas são essas coisas pequenas e simples que definem toda uma vida. A vida é o agora. Não é o que já passou e nem o que há por vir. Eu vivo o hoje. E são esses pequenos recomeços que determinam se eu vivo uma vida regular ou uma vida de vencedor do concurso nacional de talentos.

É o que mostra a história do George (essa sim, é enormemente inspiradora e fantástica): a importância de persistir e lutar apaixonadamente pelos nossos sonhos. É isso que faz com que a apresentação de hoje seja a melhor de toda uma vida. Se não podemos viver para realizar os nossos sonhos, de que outra maneira vale a pena viver?

Obrigado, George! Obrigado por ter me mostrado, quando mais uma vez eu precisei enxergar, o que é viver uma vida apaixonada.

domingo, 22 de março de 2009

Carta a Jose

Caro Jose,

Como vão as coisas?

Estava escrevendo um post sobre o filme "Entre os muros da escola", que vi essa semana, mas tive que deixar ele de lado um pouco e escrever essa carta (na maioria das vezes, eu escrevo aqui alguma coisa que fica rondando por algum tempo a minha cabeça). Nesse final de semana, outros pensamentos tomaram o lugar do conflito entre professores e alunos abordado no filme e, como esse outros pensamentos têm muito a ver com muitas das coisas que trocamos até agora, tive a necessidade de escrevê-los e enviá-los a você.

Já faz algum tempo do seu regresso a Nova York depois de ter passado uns dias por aqui (dias bem legais, por sinal). Naquela ocasião, para ser mais preciso, no dia em que você chegou, quando voltei do trabalho à noite, fomos a um restaurante em Ipanema tomar algo e bater um papo. Como eu estava me recuperando de uma sinusite e tomando antibióticos, pedi uma bebida de iogurte com manga, sem álcool. Lembra que conversamos sobre a vida, o trabalho, e como era estranho constatarmos que a vida parece ter tomado um rumo onde tudo parecia ser meio banal? E que você disse que conversando sobre isso com outro amigo acabavam chegando a conclusão de que as coisas são assim e não há muita saída. Foi quando eu citei a cena final do filme do Almodóvar "Má educação", quando a palavra paixão vai crescendo até tomar a tela inteira, e disse que eu acreditava que o grande desafio era descobrir aquilo que fazemos com paixão e colocarmos isso em prática, lembra? Pois então, nesse final de semana, alguns fatos trouxeram esse assunto com força total a mim.

O primeiro deles aconteceu na sexta-feira. Eu estava folheando uma revista antiga, quando me deparei com uma entrevista com um escritor de romances. O que eu fiquei surpreso e admirado foi constatar que o cara já tinha quatro livros publicados e isso com apenas 30 anos de idade!

No mesmo dia, achei o blog do jornalista e repórter da versão brasileira do CQC Rafael Cortez. Li alguns posts e também fiquei muito admirado com o trabalho do cara. E só o fato de ele manter um blog interessante (têm umas sacadas muito boas!), além de ser excepcionalmente inteligente, mexeu bastante comigo. E ele tem 32 anos!

O fato que terminou por abalar todas as minhas estruturas e colocou todos os questionamentos na fogueira novamente, ocorreu no sábado de manhã: o recomeço do curso de teatro. A aula foi espetacular. A professora é excelente. Era incrível ver as pessoas executando os exercícios, absorvendo às instruções e se entregando de verdade a algo por pura paixão (inclusive eu!). E, caramba, que sensação maravilhosa!

Eu tenho uma desconfiaça do porquê desse fatos aparentemente isolados e banais terem provacado em mim essa sacudida. Como conversamos algumas vezes, eu sempre me perguntei qual o significado de aproveitar realmente a vida? Quando olhamos para trás, o que é que nos dá mais orgulho de ter realizado? Ou o que é que teríamos orgulho de realizar daqui para frente? É incrível como a resposta a essas questões assume uma forma diferente em cada fase da vida, de acordo com a realidades que estamos condicionados. Até as próprias perguntas acabam sendo tendenciosas (observe que eu estou assumindo que aproveitar a vida é realizar algo que nos dá orgulho). Partindo desse princípio, eu tenho um esboço da resposta a essas questões hoje. E ela, certamente, envolve paixão.

Já tentei "aproveitar a vida" buscando somente o prazer por prazer. Vivi uma fase tentando aproveitar a vida dessa maneira e começou a se abrir um vazio muito grande dentro de mim. Sentia que estava desperdiçando algo.

Hoje, eu tenho a vaga idéia de que fazer algo que me dê orgulho envolve o seguinte verbo: construir (ou produzir). Não consegui ainda elaborar cem por cento essa idéia, mas acredito que o caminho seja por aí. Se eu partir desse princípio, consigo visualizar o porquê de uma vida somente de prazer por prazer causar um vazio: porque é uma idéia totalmente oposta ao construir. Quando buscamos somente aquele tipo de vida, estamos "desligados" da realidade. Não existe resultado, não existe produto daquela ação, não se evolui. O prazer acaba e o que resta? Deve haver algo que proporcione um prazer mais duradouro e esse algo deve ser o contruir. Construir com paixão.

E eu acredito também que seja por isso que me causa muita admiração alguém novo com alguns livros já publicados (resultado de um processo de construção de livros) ou alguém que mantém um blog interessante e inteligente (resultado de um processo de construção de um blog). Eu li uma vez que se admiramos alguma coisa é porque lá no fundo gostaríamos de viver ou fazer aquilo. E, de fato, a idéia de eu publicar um livro, de fazer um filme, de manter um blog interessante me agrada demais. Sinto que eu teria muito orgulho de mim. E escrever é algo que faço com muita paixão. Mesma coisa é o teatro.

E por que logo construir arte me fascina?!

Acredito que a arte, junto com a fé, são as expressões máxima de humanidade. Ou seja, são as atividades que comprovam que o ser humano é realmente humano, diferente dos outros animais. Na maior parte do tempo, estamos satisfazendo a nossa necessidade de sobrevivência e os extintos primitivos (quando dormimos, nos alimentamos, acasalamos, trabalhamos etc.). E quando resolvemos tudo isso, qual o degrau que está adiante? Poderia ser a arte. E arte, envolve contemplação. Ora, um cachorro não consegue cavar um buraco e depois ficar contemplando "nossa, esse buraco ficou uma maravilha! Uma verdadeira obra de arte!".

Puxei um pouco para o lado da arte, mas é claro que existe muitas outras coisas que podemos contemplar e nos orgulhar (defender e lutar por uma causa, por exemplo, como fez Harvey Milk). Mas acredito que em todas elas esteja presente a fórmula construir com paixão.

Jostein Gaarden, o professor de filosofia que escreveu "O Mundo de Sofia", sugere num de seus livros que se existe algum sentido natural para a existência do universo, esse sentido é a própria contemplação de si mesmo. Ou seja: o fato de o homem ser a expressão da evolução máxima que o universo conseguiu chegar até agora (até onde a gente sabe!) seria porque o homem é capaz de contemplar o próprio universo em si e de questionar a sua existência. Em termos mais simples, se existe um Deus criador do universo, o propósito da criação é a contemplação dela própria. E, talvez como criadores da nossa própria existência, o objetivo, no fim das contas, seja contemplar a criação desse nosso infinitésimo universo. E se orgulhar dela.

Bem, eu poderia me alongar ainda mais. Contudo, deixarei para fazer isso em outra ocasião. Faço sinceros votos que tudo esteja indo muito bem por aí. Sinto falta de você e das nossas conversas. Espero te ver em breve.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Dívidas com a alma

A minha mais remota lembrança sobre o que eu queria ser quando crescer é de uma página de uma revista de colorir com o desenho de um cientista (era um boneco mexendo com tubos de ensaio). Quando me perguntavam, eu tinha a resposta na ponta da língua: quero ser cientista!

Tudo bem que esse sonho não durou muito. Logo, logo, eu já estava querendo ser um monte de outras coisas. Uma vez, eu quis ser ator: brincava com os meus primos de montar peças e musicais que apresentávamos para a minha tia (acho que era a única que tinha paciência para nos assistir). Mas essa vontade durou até eu resolver fazer um curso de teatro e ser impedido por uma frase categórica do meu pai: "Teatro é coisa de bichinha".OK. Tive que partir para outra.

Já quase na fase do vestibular, estava totalmente inclinado a fazer Desenho Industrial: adorava desenhar e passava tardes e tardes desenhando e pintando (guardo até hoje uma pasta com os desenhos já amarelados dessa época).

Até que minha mãe me matriculou num recém inaugurado "curso de informática". Eu nunca tinha usado um computador e, segundo ela, como aquilo era importante para o meu futuro, fui para a primeira aula junto da minha tia (a mesma que assistia os musicais). Para os entendidos, era um curso de DOS e windows 3.11. Foi paixão à primeira vista. Logo na primeira aula, eu acabei a tarefa rapidamente e fui mexer num programa... de desenho! Ganhei elogios do professor que, espantado com a minha "habilidade", não acreditou que aquela era a primeira vez que eu usava um computador. Eu tinha 12 anos e a certeza do que iria fazer do meu futuro.

Lembro que nessa época, até cheguei a iniciar um curso de programação, mas resolvi abandonar, pois o curso era na mesma hora que Shurato, um desenho animado japonês que eu adorava (as crianças são muito sábias em suas decisões).

Hoje eu estou formado em computação, desisti do mestrado para "ganhar um dinheirinho" no mercado e acho que estou começando a ser cobrado de todas essas dívidas que eu fiz com a minha alma. Não sinto que ficar oito horas na frente de um computador fazendo sistemas é a coisa mais apaixonante e gratificante do mundo (tirando o salário que é bom e que já falei sobre isso no post anterior). Acordar às segundas-feira para viver essa "vida de escritório" é uma paulada no meu ânimo (isso pode ser repetir nas terças, quartas...).

Às vezes, sinto que eu preciso "ligar o automático" e esperar que essa confusão toda passe. Mas isso seria como a pessoa endividada que continua usando o cartão de crédito. E, mais cedo ou mais tarde, ela vai ter que enfrentar o tamanho do saldo negativo e o juros de todos esses abusos.

O que eu tenho mais medo é que o ser humano seja um eterno insatisfeito. Posso estar reclamando disso hoje, porém, quem me garante que amanhã, sendo louco pelo que estarei fazendo, não estarei olhando para o lado, pensando que poderia estar ganhando muito mais dinheiro?

Sendo bem franco, acho que essa última hipótese é muito difícil de acontecer. Primeiro porque as pessoas apaixonadas não costumam olhar para o lado com um interesse tão forte. E segundo porque uma conta bancária gorda, pelo menos para mim, não acrescenta muita coisa à alma. Mas uma alma grande e preenchida faz crescer uma conta bancária de qualquer tamanho. Pensando bem, não tenho tanto medo assim.

Sobre essa questão, a imagem que eu tenho do meu interior é uma grande onde se chocando contra uma rocha. Rezo para que em breve essa imagem mude para um lindo sol no horizonte sobre um imenso mar dourado.

Não se pode ignorar
os apelos da alma,
os apelos do coração.

Quando sufocados,
são apenas breves sussurros.

Mas quando libertos,
são suficientes
para fazer uma grande festa.

Permita que eles façam
a revolução.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Paulo Coelho, o trabalho e a vida

Saudações a todos! Ops... sei que este é um blog de nenhum leitor, mas me deu uma vontade imensa de saudar!

Passei o fim de ano junto com a minha família na minha cidade natal. Confesso que foi um fim de ano meio atípico, super tranquilo. Tranquilo até demais, a ponto de nos últimos dias antes de voltar para a minha casa no Rio, o tédio já estava fazendo a festa em mim (voltei com material para mais de dez posts!).

Chega de enrolar e vamos direto ao assunto: Paulo Coelho. Não, não sou fã de Paulo Coelho e nem vou aproveitar esse espaço para recomendar alguma de suas obras ou para questionar o seu talento como escritor (se alguém estiver interessado numa discussão sobre o tema, recomendo esse excelente post do interessantíssimo blog Lendo.org). Até porque eu preciso estudar muita gramática do português antes de começar a criticar o sujeito (vide os meus posts que devem ser um desastre com concordâncias e afins). O que o Paulo Coelho tem a ver com esse post então, meu deus? Ocorreu que, na minha falta do que fazer, acabei lendo um livro do nosso honrado imortal, onde achei um texto curiosíssimo, que tomei a liberdade de reproduzir abaixo e compartilhar com meus amigos. Prestem atenção ou simplesmente pulem, se quiser. Para os que vão prosseguir, sei que é pedir demais tentarem abstrair o teor auto-ajuda da coisa toda, mas tentem, pelo menos!

Manual para ser aceito na sociedade como uma pessoa normal

1 - Aceitar qualquer coisa que nos faça esquecer nossa verdadeira identidade e nossos sonhos, e nos faça apenas trabalhar para produzir e reproduzir.

2 - Aceitar que é possível ter regras para uma guerra (Convenção de Genebra).

3 - Gastar anos fazendo uma universidade, para depois não conseguir trabalho.

4 - Trabalhar de nove da manhã às cinco da tarde em algo que não dá o menor prazer, desde que em 30 anos a pessoa consiga aposentar-se.

5 - Aposentar-se, descobrir que já não tem mais energia para desfrutar a vida, e morrer em poucos anos, de tédio.

6 - Uso de botox.

7 - Procurar ser bem-sucedido financeiramente, ao invés de buscar a felicidade.

8 - Ridicularizar quem busca a felicidade ao invés do dinheiro, chamando-o de “pessoa sem ambição”.

9 - Comparar objetos como carros, casas, roupas, e definir a vida em função destas comparações, ao invés de tentar realmente saber a verdadeira razão de estar vivo.

10 - Não conversar com estranhos.

11 - Sempre achar que os pais estão certos.

12 - Casar, ter filhos, continuar juntos mesmo que o amor tenha acabado, alegando que é para o bem da criança (que parece não estar assistindo às constantes brigas).

12a - Criticar todo mundo que tenta ser diferente.

14 - Acordar com um despertador histérico ao lado da cama.

15 - Acreditar em absolutamente tudo que está impresso.

16 - Usar um pedaço de pano colorido amarrado no pescoço, sem qualquer função aparente, mas que atende pelo pomposo nome de “gravata”.

17 - Nunca ser direto nas perguntas, mesmo que a outra pessoa entenda o que se está querendo saber.

18 - Manter um sorriso nos lábios quando se está morrendo de vontade de chorar. E ter piedade de todos os que demonstram seus próprios sentimentos.

19 - Achar que arte vale uma fortuna, ou que não vale absolutamente nada.

20 - Sempre desprezar aquilo que foi conseguido com facilidade, porque não houve o “sacrifício necessário”, e portanto não deve ter as qualidades requeridas.

21 - Seguir a moda, mesmo que tudo pareça ridículo e desconfortável.

22 - Estar convencido de que toda pessoa famosa tem toneladas de dinheiro acumulado.

23 - Investir muito na beleza exterior, e se preocupar pouco com a beleza interior.

24 - Usar todos os meios possíveis para mostrar que, embora seja uma pessoa normal, está infinitamente acima dos outros seres humanos.

25 - Em um meio de transporte público, jamais olhar diretamente nos olhos de uma pessoa, caso contrário isso pode ser interpretado como um sinal de sedução.

26 - Quando entrar no elevador, manter o corpo voltado para a porta de saída, e fingir que é a única pessoa lá dentro, por mais lotado que esteja.

27 - Jamais rir alto em um restaurante, por melhor que seja a história.

28 - No Hemisfério Norte, usar sempre a roupa combinando com a estação do ano; braços de fora na primavera (por mais frio que esteja) e casaco de lã no outono (por mais quente que esteja).
29 - No Hemisfério Sul, encher a árvore de Natal de algodão, mesmo que o inverno nada tenha a ver com o nascimento de Cristo.

30 - À medida que for ficando mais velho, achar-se dono de toda a sabedoria do mundo, embora nem sempre tenha vivido o suficiente para saber o que está errado.

31 - Ir a um chá de caridade e achar que com isso já colaborou o suficiente para acabar desigualdades sociais do mundo.

32 - Comer três vezes por dia, mesmo sem fome.

33 - Acreditar que os outros sempre são melhores em tudo: são mais bonitos, mais capazes, mais ricos, mais inteligentes. É muito arriscado aventurar-se além dos próprios limites, melhor não fazer nada.

34 - Usar o carro como uma maneira de sentir-se poderoso e dominar o mundo.

35 - Dizer impropérios no trânsito.

36 - Achar que tudo que seu filho faz de errado é culpa das companhias que ele escolheu.

37 - Casar-se com a primeira pessoa que lhe oferecer uma posição social. O amor pode esperar.

38 - Dizer sempre “eu tentei”, mesmo que não tenha tentado absolutamente nada.

39 - Deixar para viver as coisas mais interessantes da vida quando já não tiver mais forças para tal.

40 - Evitar a depressão com doses diárias e maciças de programas de TV.

41 - Acreditar que é possível estar seguro de tudo que conquistou.

42 - Achar que mulheres não gostam de futebol, e que homens não gostam de decoração.

43 - Culpar o governo por tudo de ruim que acontece.

44 - Estar convencido de que ser uma pessoa boa, decente, respeitosa, significa que os outros vão pensar que é fraco, vulnerável, e facilmente manipulável.

45 - Estar igualmente convencido de que a agressividade e a descortesia no trato com os outros são sinônimos de uma personalidade poderosa.

46 - Ter medo de fibroscopia (homens) e parto (mulheres).

47 - Finalmente: achar que a sua religião é a única dona da verdade absoluta e que todos os outros seres humanos neste imenso planeta que acreditam em qualquer outra manifestação de Deus estão condenados ao fogo do inferno.

(Paulo Coelho)

Têm umas ótimas. A que eu mais gosto é a número 16: qual a utilidade de uma gravata?! Eu sempre me questionei isso. E acredito que se algum dia eu precisar de um acessório desses para ir para o trabalho, certamente teria fugido (e muito) de todos os meus valores presentes.

Manual para ser aceito na minha família como uma pessoa normal

Dia desses, me peguei conversando com minha prima sobre a cultura do concurso público que reina na nossa família. Esse é o caminho que todos acreditam ser o melhor para os filhos e netos: passar num concurso público e ter emprego garantido para o resto da vida. Se eu olhar para o lado, não tiro a razão deles, pois todas as fontes de renda da minha família (todas mesmo, sem uma única exceção) são de cargos ou aposentadorias de serviços públicos. O parâmetro deles é esse. Entretando, para mim, a idéia de ter um emprego garantido para o resto da vida não parece tão atraente. Me soa mais como a crença de um trabalhador inglês na época da recém-chegada Revolução Industrial.

Finais de semana: devem ser utilizados para as pessoas fazerem aquilo que elas gostam, principalmente gastar o dinheiro que elas ganham do trabalho.

Férias: período de tempo quando as pessoas descansam e relaxam das atividades ligadas ao seu trabalho.

Conseguiram perceber como esses conceitos são frágeis? Parece que a vida fica espremida entre o trabalho e a hora de dormir.

Se a pessoa conseguisse se ocupar de um trabalho que fosse desafiador, empolgante ou que simplesmente desse muito prazer, esses conceitos já estariam quebrados. Ou ainda: se as pessoas não precisassem trabalhar oito horas todos os dias, e tivessem mais tempo para se dedicar a atividades que não necessariamente lhe dessem retorno financeiro, a vida não seria mais leve?

Acontece que esses conceitos já estão tão arraigados na nossa sociedade, que as pessoas já não param para pensar se as coisas poderiam ser de outro jeito. Da maneira como funciona hoje, é como se a pessoa aceitasse trabalhar numa coisa que não lhe dê muito prazer, mas que proporcione um retorno financeiro de modo que a pessoa possa se encher de agrados para compensar o tempo que passa naquela atividade (pensem nos carros, nos restaurantes caros, nas roupas de marca, e por aí vai). Isso tudo são recompensas. Mas, na essência, não passam de próteses: o ser humano, a todo instante, preenchendo um vazio que ele mesmo fez. É a vida nos extremos: nos estressamos e nos entediamos muito e depois nos mimamos e nos agradamos muito também.

Existe alguma maneira da vida ser um pouco mais equilibrada?

Goethe resume a essência do texto do Paulo Coelho na seguinte citação:

Quem, de três milênios, não é capaz de se dar conta, vive na ignorância, na sombra, à mercê dos dias, do tempo.

domingo, 30 de novembro de 2008

Lá fora

Eu sempre tive vontade de morar fora do país. Essa vontade vem de muito, muito tempo. De tanto tempo, que eu nem me lembrava mais de como e quando ela tinha surgido.

Ontem, surgiu o assunto durante uma conversa e uma amiga do meu primo me perguntou: "Mas por que você tem tanta vontade de morar fora?" Eu, automaticamente, respondi que era pela experiência de vida, de viver em outra cultura. Daí, ela disse: "Rafa, eu acho que aqui você já vivi uma experiência muito legal: você mora sozinho, você tem as suas coisas e é dono do seu nariz!". Pois é, ela estava certa. O que eu fiquei pensando depois é que a maioria das pessoas que vai morar fora do país acaba passando pela primeira vez pela experiência de viver só e aprender a se virar só. E lembrei que o real motivo de eu ter o desejo de viver lá fora, não é esse! E qual é?

Certa vez, eu fui a um encontro de pessoas que queria imigrar para o Canadá. A certa altura do evento, cada pessoa se apresentava e dizia os motivos pelos quais tinham escolhido o Canadá para viver. Eu, confesso, que fiquei muito assustado quando ouvia que a maioria queria não queria ir para lá; queriam mesmo, era fugir do Brasil, pois está uma violência só, e esse país não tem jeito, é muito corrupção, e que íam em busca de uma melhor qualidade de vida... OK, cada um tem a sua opinião e eu respeito profundamente. Só que, eu acredito que as pessoas levam consigo, para onde quer que elas forem, todos os seus problemas. É o conceito budista de carma: ninguém transforma o carma mudando de lugar. É claro, que existe a teoria das probabilidades e, se eu estou num lugar violento, o risco de acontecer alguma coisa é maior do que se eu estou num lugar mais pacífico. Mas isso não invalida a parte mística da coisa. Ou seja, se eu não transformar ou amenizar o meu carma, eu vou sofrer por aquilo independete de onde eu esteja. Como eu acredito nisso e também, apesar de saber de muias coisas estarem erradas, gosto muito do meu país, fugir não era a minha motivação.

Não precisei me esforçar muito para lembrar de onde vinha o meu desejo de morar fora do Brasil: eu sempre achei a vida muito curta e o mundo muito grande e fantástico, que seria uma limitação muito grande passar toda uma vida num só lugar. E, para mim, não basta conhecer como turista: eu quero viver entre outras culturas! Não que eu idealize algo, ou ache que vai ser melhor do que a vida que eu tenho. Aqui, eu posso dizer que é pela experiência. E pela experiência, pode ser muito bom ou muito ruim. Ou pode ser a mesma coisa também.

O fato é que o tempo é sempre um questionamento para mim. Para ser mais preciso, a passagem do tempo. E como aproveitar esse tempo. Cada minuto da vida é preciso, não volta atrás.

Se você se identificou com esse meu pensamento, saiba que temos em comum, a mesma sede de viver a vida. E como vivê-la da melhor maneira possível? Como aproveitar o próximo minuto? Ficam as perguntas.